terça-feira, 2/ago/2016 às 09:03am

Bowl Ilha do Ferro, de Rodrigo Almeida e Ze Crente

Bowl Ilha do Ferro, de Rodrigo Almeida e Ze Crente

 

 

O Grupo Design Armorial resgata a manufatura dos sertões na exposição “Afluentes”, que inaugura dia 8 de agosto na Legado Arte.

Um novo olhar ilumina o Brasil profundo: de costas para a costa, montado no lombo de um cavalo direto para o sertão. É uma viagem que valoriza o interior e o comportamento desacelerado. É sobre ter paciência para encontrar poesia e inspiração no simples passar do tempo.

No mundo bombardeado de informações velozes e descartáveis, de desejos inatingíveis e ansiedade máxima, olhar para o que está ao redor e descobrir a potencialidade criativa no que é local tem se desenhado como uma grande inspiração para o design brasileiro impregnado de lirismo e surrealidade.

Essa aventura remete à herança cultural cartografada pelo modernista Mário de Andrade, que se empenhou em entender a realidade brasileira sob uma perspectiva mestiça e traçar com as ferramentas de seu tempo as coordenadas de uma cultura legitimamente nacional, tendo o folclore e a cultura popular como instrumentos de investigação para seu conhecimento do povo brasileiro. Ele soube como ninguém de seu tempo, colocar vivências de vanguarda urbana em contato com o rústico, o primitivo e arcaico, numa dinâmica que hoje reverbera como forte traço para a construção de um novo caminho estético.

Como na “Missão de Pesquisas Folclóricas” — aventura de Mário de Andrade no sertão pela salvação da cultura popular para registrar o folclore musical antes que o rádio deturpasse as raízes culturais brasileiras mais genuínas –, agora um time influente de designers faz essa viagem de volta para o interior a fim de resgatar e perpetuar as habilidades do sertanejo com o manuseio do couro e da madeira antes que a fabricação em série acabe de uma vez por todas com esse legado.

A MEMÓRIA AFETIVA DOS SERTÕES

Em contraponto ao mundo de telas digitais, homens ávidos por toques mais rústicos encontram na arte dos mestres sertanejos referência e inspiração ímpares para um novo ciclo que se inicia.

Bebendo na fonte do escritor Ariano Suassuna, surge o Grupo Design Armorial, comandado por Rodrigo Almeida e Rodrigo Ambrósio, que trabalham “o artesanato como design, passando do pré-industrial para o semi-industrial e industrial, sendo o principal foco fomentar o repertório da cultura material nordestina, documentando-a e criando um novo arsenal que une aspectos de sua imagética pública e privada”.

O grupo nasceu da vontade de transformar o Movimento Armorial imaginado por Suassuna em linguagem de design, almejando, como o dramaturgo pernambucano, criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular nordestina, sendo o sertão, a fonte da verdadeira tradição das formas artísticas (com ênfase no teatro, música e literatura) herdadas da cultura clássica de influência greco-latina.

E é esse universo simbólico habitado por seres fantásticos e doses lisérgicas de lirismo que serve de inspiração e fio condutor para as criações do Design Armorial.

O ponto de partida foi o curtume e a arte do couro, resistência ativa frente à rapidez das revoluções culturais, que reveste e protege os mestres artesãos do Nordeste profundo.

Suas primeiras peças unem rusticidade, resistência, funcionalidade, beleza e poesia –e trazem elementos presentes na indumentária do vaqueiro e nos acessórios de montaria– traços que também desenham suas mais novas criações.

O LIRISMO SURREAL

Agora, o Grupo Design Armorial se reúne na Galeria Legado Arte, no Jardim América, e apresenta a exposição coletiva “Afluentes”. O projeto tomou forma a partir do convite de Rodrigo Almeida e Rodrigo Ambrósio à Dalton e Maria Amélia, para juntarem-se a quatro criativos que vivem na beira do Rio São Francisco: Zé Crente, Mestre Valmir, Petrônio e Jasson.

Em sete dias de imersão na Ilha do Ferro (AL), importante área de produção de peças autorais em madeira e para onde os olhares mais sensíveis e inteligentes estão apontados, o grupo viveu o ambiente como meio de integração e laço territorial para alimentar seu processo criativo.

Somando a estética naif e bucólica local com o design recheado de signos urbanos do Grupo, o resultado pode ser visto na exposição de 15 objetos-arte, descritas pela curadora Beta Germano como uma série de “novos seres extraterrestres, extrabrasileiros: um boi-vaso; uma carranca-vaso; um calango-banco; um pássaro-luminoso-navegante; um jabuti-luminária; e, um canguru-pomba-cobra-girafa-cadeira. O resultado é lírico e surreal”.

O designer Rodrigo Almeida diz que “Afluentes é uma junção que permeia e discorre sobre a estética cultural brasileira de ontem, hoje e amanhã”, o que pode ser entendido como uma ressignificação das tradições que teimam em resistir à onda de produtos criados em materiais tecnológicos e produzidos em série.

Seu trabalho coloca o olhar do espectador em contato com o choque cultural existente entre a tradição da arte sertaneja e o desejo ditado pela globalização, afastando-o cada dia mais da manufatura e das heranças culturais transmitidas pela oralidade e ancestralidade dos saberes.

Em sua estética questionadora, o grupo aposta na reinvenção das funções, criando objetos para perpetuar arte, ofício e identidade. As peças surgem como combinações dissonantes, despertando saberes e símbolos adormecidos.

E assim, a força do Brasil profundo — que tantos teimam em negar nesses obscuros tempos de violência e preconceito — e a relação do homem-artesão com a simplicidade do existir e as texturas da natureza ao seu redor seguem inspirando o design de resgate da manufatura dos sertões, em estruturas que abordam de forma sutil e silenciosa o homem em sintonia com a cultura popular e sua ancestralidade. Contemplação e interiorização são palavras de ordem.

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Afluentes @Legado Arte
Abertura para convidados: 08 de agosto, às 19h
Abertura para o público: 09 de agosto, a partir das 11h
De 09 de agosto a 06 de setembro de 2016
Al. Gabriel Monteiro da Silva, 500 — Jardim América — SP
Horário: das 11h às 18h; de seg. à sexta; sábados das 11h às 15h

1. Os Viajantes – Cidadão Instigado

2. Last Remnants – Koreless

3. Ingazeiras – Ednardo

4. Zapateo – Mala Feat. Colectivo Palenke

5. Letters of a Traveller – Ólafur Arnalds & Alice Sara Ott

6. Pé de Espinho – Régis & Rogério

7. Days – Weval

8. Chão de Giz – Zé de Ramalho

9. Wind – Hauschka

10. Como As Primeiras Chuvas do Caju – Angela Linhares

11. Aurora – Eduardo

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