sábado, 28/dez/2013 às 03:04am

Leo Tomassini

Carioca, filho de carioca com laços italianos, cearenses e maranhenses, o cantor e compositor Leo Tomassini lança o álbum “Arpoador”, que chega como inspiradora trilha sonora para esses dias quentes de verão. Doçura, paixão e simplicidade no tom certo. Uma delícia.

 

O CD tem participações bem especiais, como Caetano Veloso (voz em “Elizabeth”), a guitarra de Pedro Sá (cavaqueando em “Garoa”), Leandro Braga no clavinete e Nelson Jacobina que toca violões e guitarras e para quem o álbum é dedicado. Jorge Mautner assina o texto de abertura do disco.

 

 

QUEM É ELE

 

Nos anos 90, Leo participou da Família Roitman: “Grupo de sarau de escola que começou piadista, trash, humor-mico pros amigos da escola”, explica.

 

Danny Roland, que assina a direção musical do álbum, lembra: “Ele cantava nos saraus do colégio (CEAT) aqui de Santa Teresa quando o grupo dele estourou no Rio. Viraram CULT da galera carioca porque tocavam Samba de Raiz avant la lettre, ou seja, eles resgataram o samba no Rio, garotos da Zona Sul, um fenômeno. A Lapa é o que é hoje por causa deles e de Leo principalmente.

 

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O INÍCIO

 

SHHH – Como foram os tempos da Família Roitman?

LEO TOMASSINI – Quando a Família Roitman começou a tocar samba antigo no Lugar Comum, um bar de Botafogo, em 1992, o samba era uma língua morta para toda minha geração. Toda. Ninguém sabia do que se tratava. Ninguém sabia quem era Paulinho da Viola. Clementina de Jesus? Uma alienígena. Quando a gente começou não existia a Lapa, Orquestra Imperial, Monobloco, não havia tanto bloco e carnaval de rua. O Rio de Janeiro estava esquecido de sua própria história recente.

 

SHHH – E qual o maior legado dessa época?

LT – A partir disso me vi tragado pela força do samba. Queria cantar, era o mais afinado e atirado do grupo. Minha voz era horrível, nasalada, metálica, dura, mas eu não tinha a menor vocação para me dedicar a um instrumento. Comecei a estudar canto obsessivamente para tentar fugir do meu destino. Vou morrer estudando e querendo fazer melhor. Paciência, eu escolhi. Virei professor de canto e acho que isso é uma das melhores coisas que faço na vida.

 

O AGORA

 

SHHH – Por que Arpoador?

LT – Desde criança o Arpoador exerce fascínio sobre mim. Sempre gostei dali, me sentia acolhido. Os cantos das praias são sedutores. Eu sinto que o Arpoador é um lugar para se estar para olhar para o outro lado da praia. Em dias mansos e de águas claras, sentado nas pedras, sinto aquela grandeza como uma piscina. Aquelas pedras, aquele mar são um pouco minha casa. Em 20004, me separei (sou de 1970), e aos 34 anos de idade, comecei a compor. Nunca tinha composto uma música na minha vida. Arpoador fala desse amor, dessa dor.

 

SHHH – Como você define seu som?

LT – “Arpoador” é basicamente um disco de samba, samba-canção. Sinto que meu jeito de compor é herdado dos anos 30. O centro é o samba, mas há espaço para o fox (“Dance With Me” e “American Love Song Way”), e valsa, que não tem neste disco, mas estará no próximo.

 

SHHH – Por que o samba?

LT – Sabe que até gostaria de fazer rock, da vitalidade que ele tem, mas durante um bom tempo da minha vida fui um radical que só ouvia samba. Sou louco pela música negra norte-americana, mas quando vou compor só me expresso desse jeito brasileiro. Paciência, talvez eu tenha perdido o ponto de maturação nessa outra língua.

 

SHHH – Qual a influência de Dany Roland no álbum?

LT – Se não fosse ele, meu álbum seria um disco de samba bem conservador. Graças a ele conseguimos essa sonoridade um pouco mais estranha, suja, talvez. É dele a ideia de cantar apenas com o mar como acompanhamento. Por sinal no fim do trabalho eu e Dany percebemos que o disco ficou muito mar. E isso não foi uma decisão prévia, foi um acontecimento.

 

SHHH – O que há por trás da dedicatória a Nelson Jacobina?

LT – Fiquei mais perto de Nelson na gravação do álbum. Foi Dany Roland que o chamou pra participar. Paixão imediata e absoluta. Um cavalheiro, um talento imenso, um saber enorme e ao mesmo tempo uma delicadeza, uma cordialidade. Doce. Os grandes são assim, nobres. Fizemos um samba juntos, “O Que Não Se Nega”, que estará no próximo disco. Honra pra carregar pra vida toda, sou parceiro de Nelson Jacobina. No meio do processo do disco Nelson morreu. Fizemos questão de dedicar esse trabalho a ele, ao seu imenso talento, a grandeza de pessoa que ele é. Os violões e guitarras de Nelson no disco são assombrosos. Um luxo.

 

SHHH – O tom do seu som é azul mesmo como define Jorge Mautner no texto de apresentação do álbum?


LT – Se Jorge Mautner falou, está falado. Azul é uma cor e um som (o som da palavra) que presentificam uma alegria calma, pacífica, boa, uma felicidade silenciosa e discreta. Se minha música tiver um pouco disso, estou feliz, realizado. As palavras de Mautner são as coisas mais bonitas que eu já ouvi sobre meu trabalho. Glória.

 

SHHH – O que mudou de seu álbum “Amor E Cordas”, de 2003, para agora?

LT – Caetano Veloso no texto de apresentação daquele álbum falava do perigo do samba se querer uma reserva indígena idealizada, parada no tempo, “pura”. Não guardo nenhuma identificação com o samba da Lapa de hoje. Eu gosto da Orquestra Imperial.

 

SHHH – Quem lhe inspira?

LT – A mulher, a beleza, o amor. Não acredito em música sem musa, seja a musa a mulher, o cachorro, o botequim, a política. Sem arrebatamento por alguma coisa, não há música. Pelo menos pra mim. Posso passar meses e meses sem compor uma única linha. É desesperador. Toda música que faço penso que é a última. Mas nessas horas me agarro ao verso de Paulinho da Viola: “O poeta declina daquilo que ele não sente e o silêncio é o peso que ele conduz”. É preciso ter a coragem de carregar o silêncio. E se você não tem a coragem de carregar o silêncio, não importa, você vai carregá-lo assim mesmo. A vida é um rigor abençoado.

 

SHHH – E para quem você faz silêncio?

LT – Eu faço silêncio quando ouço João Gilberto, Paulinho da Viola, Guinga, Caetano Veloso, Gil, Gal, Nana, Chet Baker, Ella, Orlando Silva, Roberto Silva, Julie London, Deusa do Amor com Moreno, Céu, Rubinho Jacobina, Michael Jackson…

 

SHHH… “Tanta coisa pede silêncio”.

 

CONTATOS
leotomassini@oi.com.br

producao.isabel@gmail.com

 

 

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28/12/2013 às 7:38
Seta

leozinho v.é um grande poeta.vamos carregar o SILÊNCIO COM V.BEIJOS AZUIS PARA V.BB.

29/12/2013 às 6:51
Seta

para se ouvir numa rede, fim de tarde e o por do sol ao fundo….lindo!