De férias em Fortaleza, na Praia do Futuro, me deparei com um som que
imediatamente me transportou para a infância. Tililing-tililing-tililing. “Olha a chegadinha!”
Veio de longe e aos poucos foi me ensurdecendo para as falas e cantorias dos outros muitos vendedores que transitavam entre as mesas, oferecendo castanha, camarão, ostras, toalhas de renda e “o último CD do Aviões”. Tililing-tililing-tililing. “Olha a chegadiiiinhaaaa!”.
Como o Flautista de Hamelin, Seu Francisco tocava o triângulo e hipnotizava todo mundo por onde passava.
Enquanto escrevo, a boca enche de água, talvez desviando para outro canal as lágrimas da saudade dos tempos em que a rua da casa dos meus pais era de calçamento, com dois grandes pés de castanhola se debruçando sobre o muro baixo de uma Fortaleza ainda ingênua para toda a violência que estava por vir.
– Quanto é a chegadinha, Seu Francisco?
– Três por um real, disse, abrindo aquele enorme tubo de metal prateado que carregava nas costas, como se fosse uma nave espacial cintilante.
– Pois me dê seis.
– Tome.
– Nunca mais tinha visto um vendedor de chegadinha…
– Tá se acabando… Tem pouca gente na profissão.
Tililing-tililing-tililing. “Olha a chegadiiiinhaaa!”. Lá se foi ele e eu fiquei feliz da vida por ter colaborado contra a extinção daquele tilintar mágico.
Se tem algo com poder de me transportar para outro plano é o som das ruas.
Não as buzinas ou freios, mas as melodias dos vendedores ambulantes. São potentes para me levar até a Praça José de Alencar, no centro de Fortaleza.
– Borracha para panela de pressão, desentupidor pra fogão à gás!
Ou para a Rua Frei Vidal, onde morei até me mudar para São Paulo.
– Pipiiiiiito, olha o pipiiito. Olha o picolé!
São sons que se misturam na memória com a cantoria dos violeiros e repentistas, resistência popular um tanto deslocada quando se pensa nos carros de som com capacidade de furar tímpanos e destruir qualquer possibilidade de uma boa conversa na praça, à sombra das majestosas mangueiras.
Nos tempos de Colégio Cearense, que já não existe mais, todas as moedas guardadas valiam cada pedaço dos sabores vendidos na calçada, depois da aula.
– Olha o doce americano, aê!, cantarolava o vendedor, batendo com a espátula na lateral do estojo de alumínio, atraindo a garotada como abelhas em cima do mel.
– Olha o quebra-queixo!, chamava outro rapaz, logo mais à frente, na esquina da Jaime Benévolo com a Duque de Caxias.
Fico a pensar quantos mistérios guardava a receita daquela senhora negra, de saia rodada, turbante e avental, tudo em tons desbotados, subindo e descendo a Avenida dos Expedicionários, com as mãos hábeis, puxando sem parar uma liga dourada de açúcar.
– Olha o puxa-puxa! Quem vai querer o puxa-puxa? Olha o puxa-puxa…
Hoje, aqui em São Paulo, na rua em que moro, cruzei com o simpático senhor de meia-idade empurrando o carrinho que solta um som bastante peculiar. É o silvo, que anuncia a chegada do amolador de facas.
– Peraí que vou lá em cima buscar as facas pro senhor amolar, pode ser?
– Claro, disse ele sorridente, estacionando sua geringonça na calçada do prédio.
– Quanto é pra amolar cada uma?
– R$ 5, mas pra você que é cliente, faço as três por R$ 10.
– Opa, tá aqui as facas.
Elas ainda estavam afiadas da última vez que ele passou pela rua, mas fiz questão de amolar só pra prolongar o prazer de uma conversa simples, incentivando a existência de um personagem e de um som que tende a sumir das ruas.

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texto lindo!
amei e lembrei tb de sons compartilhados, e sons só meus… saudade
inspirado e inspirador! deu vontade de ir pra rua.
emocionei! lindo, amo rememorar. obrigada.vou comer chegadinha hoje e lembrarei de você.